A casa de John se abriu diante de mim como uma ferida antiga. Cheirava a café coado, a uísque derramado em noites de silêncio — e parecia que até as paredes guardavam segredos que eu não deveria ouvir. Ali, entre madeira gasta e sombras inquietas, a Cia Ascalon fez o faroeste respirar de novo. Mas não o faroeste romântico: o faroeste que dói, que denuncia, que ainda vive dentro do nosso presente.
Porém, foi nas cenas entre Cícero e Wolf que o ar ficou mais pesado. Cícero, com a ancestralidade nos olhos, carregava no corpo a dor de um povo inteiro. Cada humilhação sofrida parecia cair também sobre mim, como se minha pele lembrasse coisas que eu nunca vivi, mas que minha história conhece.
Do outro lado, Wolf, o delegado miliciano. A atuação dele era tão precisa, tão cruel, que dava nojo. Raiva. Uma repulsa que queimava por dentro. Quando ele dividia o palco com Cícero, eu sentia um nó: uma mistura de compaixão e fúria, uma vontade quase impura de atravessar a cena e fazer justiça com as próprias mãos.
E ali, sentada na plateia, me perguntei:
o que é certo? o que é errado?
Existe pureza na justiça quando ela nasce da dor?
Ou é justamente a dor que nos ensina o caminho?
No fim, a justiça veio.
Veio das mãos de Cícero — e nenhum outro desfecho seria possível. Foi um alívio quente, quase um sussurro ancestral dizendo: agora, respira. A plateia vibrou não pela violência, mas pela poesia de ver, ainda que por instantes, o mundo se reorganizar ao redor de um corpo negro que se recusa a ser silenciado.
Saí do teatro com a sensação de ainda estar dentro da casa de John.
E carregando comigo a pergunta que a peça deixou ecoando:
Quando o lobo e o chacal tomam conta do mundo… quem somos nós ao escolher como reagir?
Teatro do SESI AE Carvalho – São Paulo (SP)
Espetáculo: A Canção dos Lobos e dos Chacais
Companhia: Cia Ascalon
(Festival de Teatro Prêmio Eliete Fernandes)

Por Gaya, NANNU | 25 de novembro 2025
(Nannu Gaya é autora e observadora do instante. Escreve crônicas sobre arte, cotidiano e tudo o que se dissolve entre um gole e outro.)
